quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Uma Antiga Fábula sobre Naga

Uma velha fábula indiana conta que, há milhares de anos, vivia em um templo abandonado uma grande cobra venenosa. Seu nome era Naga e ela tinha em geral bons sentimentos, mas despertava terror nos habitantes da aldeia mais próxima porque - quando incomodada - mordia as pessoas. 

Um dia, um sábio desconhecido apareceu misteriosamente no local. Ele sentou-se junto ao templo e chamou Naga para uma conversa. Disse-lhe que a vida é, na verdade, uma grande escola espiritual, e que aprendemos o tempo todo, mesmo quando não temos consciência disso. "Mas", acrescentou, "o aprendizado é muito mais rápido e difícil quando fazemos um esforço por iniciativa própria".


A consciência de Naga se expandiu. Ela viu a luz da sabedoria, e disse que desejava trilhar o caminho consciente. O instrutor mencionou então duas condições básicas para esse tipo de aprendizado.




"O primeiro passo é o autocontrole", disse ele. "O processo sagrado começa quando o aprendiz deixa de obedecer aos instintos animais". E acrescentou, antes de prosseguir viagem: "Ao mesmo tempo, há uma outra condição. É preciso ser fraterno e pacífico
em relação a todos os seres".


Impressionada pela força das palavras do mestre, Naga deixou de lado as preocupações mundanas. Praticou meditação, aproximou-se da sua alma imortal e experimentou a paz do universo infinito. Ela também tomou uma decisão: "De agora em diante, vou controlar os meus instintos e não morderei mais ninguém".


Como a lei da evolução estabelece que todo conhecimento deve ser testado na prática, o novo comportamento de Naga chamou a atenção das crianças da aldeia. Por que razão ela ficava o dia todo imóvel, em jejum, recitando mantras e meditando sob o calor do Sol? Quando todos compreenderam que ela não atacava, começaram os risos, o desprezo e as agressões á base de paus e pedras. Com o tempo, a cobra emagreceu. Adoeceu.
Sua pele começou a cair. Mas ela perseverava.


Um ano depois, o animal estava sem forças e a beira da morte, quando o mestre desconhecido apareceu outra vez e sentou-se para conversar. A cobra contou ao sábio o que acontecera, e falou - feliz - da sua fidelidade ao caminho espiritual. Surpreso com o sofrimento de Naga, o mestre explicou que tamanha dor não era necessária: 


"Amiga, eu disse para você não atacar. Não disse que não ameaçasse morder. Não disse que não preparasse o bote. Não deixe de impor respeito; não faça mal a ninguém, mas - quando necessário - defenda-se sem violência".



(Revista Planeta - 23/novembro/2003)