quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Influência da Arquitetura sobre as Emoções




No final do século XIX o entendimento filosófico trouxe o conceito de intuição para a percepção dos projetos arquitetônicos através de uma perspectiva de idealização artística. Contudo, somente a partir do pós guerra, a arquitetura começou a significar a relação do homem com seu espaço de ocupação, na metade dos anos 50, com vários teóricos trazendo uma abordagem psicológica da construção em interação com o ambiente.



Conceitos de espaço e lugar, construção e comportamento humano pautaram discussões teóricas. Christian Norberg-Schulz (1964) afirmava que o lugar é mais do um simples espaço de ocupação, é uma manifestação do habitar, ou seja, constituído por elementos incorporados de significados. Identificação, portanto, passa a ser o definidor, o que dá sentido ao espaço habitado.

O crítico de arte inglês John Ruskin (1819 - 1900) associava a arquitetura com a plena expressão de arte que poderia contribuir para a saúde mental, para o poder e para o prazer de quem a observava.

Torna-se oportuno resgatar nesta abordagem os conceitos de Topofilia para elucidar ainda mais a vinculação da pessoa com seu ambiente e o valor que cada um coloca no seu espaço de posse. Segundo Yi-Fu Tuan, a topofilia estuda a relação afetiva do ser humano com seu ambiente de entorno. Considera a percepção, as atitudes e os sentimentos de apego das pessoas às construções ou ao ambiente natural.[1]

É a resposta da pessoa e sua história pessoal que conferem identidade e significado de lugar a um espaço. Suas percepções sensoriais, seus sentimentos, o valor que confere a esse espaço fazem essa transformação.



A forma arquitetônica pode influenciar o sentimento humano, ampliar a consciência, definir e aperfeiçoar a sensibilidade, graduar a temperatura emocional entre “interior e exterior”, com o ‘dentro e fora’ claramente definidos as pessoas podem ter certeza de onde estão e as relações e os sentimentos humanos tendem a se intensificar.

No desenvolvimento arquitetônico é possível perceber o crescimento da capacidade humana de sentir, ver e pensar. “Os sentimentos e as ideias confusas são esclarecidas na presença de imagens objetivas” [2] nas palavras de Yi-Fu Tuan. 

Segundo John Hagelin, doutor em Física Quântica, é a partir de um profundo nível da realidade que a consciência cria a criação, unificando observado e observador como elementos num todo inseparável.[3]

Se a interação ambiente-pessoa modifica ambos, numa interligação dinâmica, podemos afirmar que certos conteúdos da própria experiência podem estar vinculados à reverberação de ondas de energia de uma arquitetura geométrica, mediante formas e alinhamentos harmônicos ou conturbados.

Para Allan de Botton a arquitetura pode nos lembrar quem idealmente podemos ser quando acessamos sua perfeição, beleza e harmonia. As construções se expressam além do desempenho de suas funções materiais, também pelas emoções que suscitam aos nossos sentidos. Mesmo usualmente tendo automatizada a função de cada espaço, podemos encontrar na emoção gerada uma vinculação com nossos anseios. [4]

Edouard Le Corbusier, grande arquiteto da atualidade, demonstra sua crença quanto à influência energética da construção, esta como algo mais além de uma reunião de tijolos, cimento e demais materiais, ao afirmar:

“Quando uma obra está no ápice da intensidade, de proporções, de qualidade de execução, produz-se um fenômeno espacial indizível: o conjunto começa a irradiar fisicamente. É algo que pertence ao domínio do inefável.”[5]


A pessoa, em conexão com seu ambiente, age e reage às influências do entorno, e pode, mediante consciência e própria decisão, alterar circunstâncias, determinar resultados, ser um agente de transformação interna mediante a ação externa do cenário de sua vida.

Além dos 5 sentidos usados para perceber um ambiente existe um contexto fenomênico de relações e proporções, sentimentos, emoções, intuição, magnetismo e conexões energéticas. Além de ser apenas uma estrutura de ferro, cimento e tijolos a casa pode ser vista como uma entidade viva que possui alma própria.

Através da estética e da beleza é possível retomar o contato com um eu mais harmônico. Ao nos vincularmos ao local de moradia nossa identidade se revela, e podemos então estabelecer com o ambiente uma relação de verdade e conexão existencial. Ao acessarmos aspectos de nosso eu no seu estado mais autêntico, mais espontâneo, entramos naturalmente em relaxamento e entrega emocional que há tempos ansiávamos encontrar.

Nossa residência é sempre um local capaz de nos nutrir em todos os sentidos, acima de tudo fornecendo refúgio, abrigo, segurança necessários para que nosso corpo se sinta relaxado e amparado depois de um dia conturbado.

No instante em que cruzamos a porta de entrada a sensação imediata pode ser de abraço e acolhimento. Neste espaço sagrado, em conexão com o que é essencial, podemos nos sentir pertencendo a um local unicamente nosso.

Lucimara Stráda - www.harmonizare.com.br


[1] TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: Difel, 1980.
[2]TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo: DIPEL, 1983.
[3] BYRNE, Rhonda. O Segredo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007
[4] DE BOTTON, Alain. A Arquitetura da Felicidade. Rio de Janeiro: Rocco, 2007
[5]DE LAFFOREST, Roger. Casas que Matam. São Paulo: Ground. 2ª Edição:1991